Projetar a partir de si: vivência, formação e repertório no design de produto em Brasília
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Resumo
O design de produto contemporâneo configura-se como uma atividade complexa e interdisciplinar, cujas dimensões ultrapassam a articulação formal e utilitária para envolver aspectos sociais, simbólicos e identitários. No contexto do Distrito Federal, a identidade visual é historicamente associada à vanguarda e à escala monumental da arquitetura modernista do Plano Piloto, narrativa oficial que frequentemente obscurece a pluralidade de produções nascidas nas demais regiões do território. Diante desse cenário, este trabalho teve como objetivo geral investigar de que maneira os aspectos socioculturais, as trajetórias de vida e os percursos formativos influenciam as práticas projetuais de designers de produto que atuam em Brasília. Metodologicamente, a pesquisa ampara-se em uma abordagem qualitativa de cunho exploratório e explicativo, estruturada por meio de revisão bibliográfica e da realização de entrevistas semiestruturadas com quatro profissionais locais de diferentes origens e bagagens acadêmicas. Os dados coletados foram organizados em matrizes visuais (moodboards) e submetidos a uma análise comparativa cruzada. Os resultados evidenciam que o cenário produtivo local constitui um território de convergência interdisciplinar, onde profissionais oriundos da arquitetura projetam a partir do rigor formal, do conceito abstrato e de programas de necessidades estruturados, enquanto projetistas vindos da engenharia florestal e da administração operam a partir das restrições materiais, da viabilidade de mercado e do pragmatismo da usabilidade. Ademais, a investigação revela a coexistência de “outras Brasílias” na cultura material da região, evidenciando desde relações de afeto com a utopia geométrica do plano urbanístico até manifestos de resistência, centralizados na realidade periférica. Conclui-se que a identidade do design local não é homogênea, mas sim disputada continuamente pelas memórias e vivências individuais dos sujeitos, desafiando os referenciais hegemônicos consolidados.

